Você nada aprendeu
Exceto que a solidão não ensina nada,
Que a indiferença não ensina nada.
Você estava só, e queria queimar as pontes entre você e o
mundo,
Mas você é tão pouca coisa,
Você não fez nada além de uma perturbação numa grande cidade.
Para andar alguns quilômetros frente a fachadas,
Vitrines, parques e aterros.
A indiferença é inútil.
Sua recusa é inútil.
Sua neutralidade não tem sentido.
Você acredita que está apenas passando, andando pelas avenidas,
vagando pela cidade,
Seguindo os passos da multidão, penetrando o jogo de sombras
e rachaduras.
Mas nada aconteceu,
Nenhum milagre,
Nenhuma explosão.
A cada dia sua paciência se esgota.
O tempo teria de ficar parado.
Mas ninguém é tão forte para lutar contra o tempo.
Talvez você tenha trapaceado, ganhado migalhas de segundos,
Mas os sinos que ressoam na manhã,
A mudança de semáforos no cruzamento dentre ruas e avenidas,
O pingar previsível da torneira sobre a calçada,
Nunca pararam de medir as horas., os minutos, os dias e as
estações.
Por muito tempo você construiu e destruiu refúgios.
Na ordem ou na inanição,
A deriva ou dormindo,
As rondas noturnas,
Os momentos neutros,
A fuga das sombras e da luz.
Talvez por muito tempo, você ainda pode continuar a mentir
para si mesmo,
A se embrutecer,
Mas o jogo acabou.
O mundo mudou, mas você não.
A indiferença não o tornou indiferente.
Você não está morto.
Você não enlouqueceu.
Não há maldição que paira sobre você.
Não há adversidade esperando por você,
Não há corvos sinistros para comer os seus olhos,
Ao abutre não lhe fora atribuída a tarefa indigesta de comer
seu fígado,
Manhã, tarde ou noite.
Ninguém está condenado, e você não cometeu qualquer crime.
Tempo, que tudo rege, proporcionou a solução, apesar de você
mesmo.
O tempo, que sabe a resposta, continua a fluir.
É um dia como esse,
Um pouco mais tarde,
Um pouco mais cedo,
Que tudo recomeça,
Que tudo começa, que tudo continua.
Pare de falar como um homem que sonha.
Olhe!
Veja aquilo!
Eles são milhares e milhares,
Sentinelas silenciosas, junto ao rio, ao longo dos taludes,
Por todo o piso molhado pela chuva da praça central,
Em plena atividade oceânica...
Esperando as ondas brancas, a cadência das marés,
Os gritos estridentes das aves marinhas.
Não!
Você não é mais o senhor anônimo do mundo,
Aquele para quem a história não tinha mais importância,
Aquele que não sentia a chuva cair,
Aquele que não via a noite chegar.
Você não é mais inacessível, o límpido, o transparente.
Você tem medo,
Você está esperando,
Você espera, na praça central, que a chuva pare de cair.
#Lobo