domingo, 8 de agosto de 2021

Vamos dar uma volta Camille

 - Camille, inicialmente queria pedir desculpas, eu sou péssimo com inícios, sei que pode parecer estranho, mas já tem um tempo que não tenho uma conversa franca com alguém, pois bem, acho melhor irmos caminhando, aproveitar o clima agradável que com certeza não durará por muito tempo.

Estendi a minha mão para que Camille tivesse um apoio para se levantar, mas não que ela precise, afinal, ela possui força para isso e dessa forma, fomos caminhando pela praia totalmente vazia, em plena terça-feira, sem um destino predeterminado em um entardecer das 15h e sem pressa para ir embora, como se tivéssemos a vida inteira e uma areia infinita para que possamos andar sobre ela.

- Pois bem Camille, pode ser que somente eu fale, afinal, nem tudo é real, eu te trouxe aqui para poder me lembrar do que eu sou feito, pois quem sou, tenho um breve devaneio sobre isso; quem me tornei foi inevitável, afinal, minhas escolhas foram decididas a partir do meu instinto, então quem me tornei é tudo aquilo que quis, mas tolo eu seria se não lembrasse de todos os participante da minha história. Quem eu fui, já não interessa mais, pois o mesmo se foi, e engana-se quem diz que foi sozinho, foi com a companhia dos meus sonhos, minha vida, meus conceitos, valores, esperança, pelo que? Pelo prazer de ser o que eu mais quis ser, um homem velho e solitário, loucura minha? Quem saberá? Confesso Camille que também vou me arrepender do que dizer e sei que deveria reelaborar o que já falei ou escrevi, mas sinceramente, eu não me importo, acho que aquilo dito no instinto sem pensar constantemente é o que mais nos aproxima da nossa natureza. Eu pensei em te dar uma voz nesse monólogo, mas é inviável, tendo em vista que não há um único pedaço em mim que quer te dar voz e me fazer questionar o que eu fiz ou a sua função ou o seu papel aqui, pois bem Camille, você é a parte dessa fantasia que mais dá voz a minha angústia. Não posso te imaginar enquanto ser humano, porque eu só consigo visualizar a Dolores de WestWorld, mas não cabe a ela o papel em minhas fantasias. Eu só sei que você não possui uma forma física também, é só um ser humanoide, mas sem definições, enquanto descrevia onde estávamos, eu alegorizei você vestindo um biquíni vermelho, cabelos loiros, mas não ouvi a sua voz e mais uma vez sendo sincero com você, não consigo ouvir a voz de ninguém, eu não tenho mais vontade pra ouvir a voz de alguém, mesmo que eu a ame. Exposto isso, acho que começamos a trilhar o meu real interesse tanto em você como nesse monólogo... A verdade é que quem eu fui pra quem me tornei, foi literalmente da água para o vinho e ok até então, mas o problema encontra-se justamente nesse cenário. Eu aos poucos estou encarando a realidade de forma decadente, onde nenhum ato de bondade, benevolência, humanidade me cativa e no decorrer dos meus dias, eu vejo humanos mais próximos dos animais, não de um sentido fofo e carinhoso, como deveria ser, mas sim, como animais que emitem um som vazio e sem sentido, como se fossem porcos grunhindo. Qual é a real intenção de alguém em provocar a dor no outro? Não era esse ponto ainda que queria apresentar nesse atual momento, mas adentraremos a fundo no assunto e por sorte retornamos a essa perspectiva... Afinal, como o ser humano pode ser o soberano na cadeia alimentar e se comportar de modo ríspido ou inacessível frente ao seu igual? Hipócrita eu seria se não pensasse no que fiz no final de semana passado, entretanto... eu acho válido continuar em um próximo momento, talvez um em que eu estivesse anestesiado.


Drake