segunda-feira, 30 de outubro de 2023

A dama de preto






Certo sábado à noite, eu precisava sair, a cidade toda estava agitava, viva com seus bares, casas noturnas, espaços abertos, parecia que aquela noite prometia ser a mais incrível de sua vida e para a minha surpresa, foi uma noite marcante, pois diferente da cidade, eu estava o contrário. Com isso, decidi me preparar para a noite, então me vesti da melhor maneira que pude, usando uma camisa branca, calça jeans, tênis branco, um colar e o meu relógio; peguei a chave do meu VW/VIRTUS cinza e fui em direção a vida noturna atrás de bocas, risadas e uma companhia para o café da manhã de amanhã.

Enquanto dirigia pela cidade, notei que nenhum ambiente me agradara, pois estavam sempre com mesas cheias e muita iluminação; apesar de que era isso que eu precisava para hoje, mas aqueles ambientes, não conseguia entrar e encontrar uma mesa, ainda mais para uma pessoa sozinha como eu estava naquele dia.

Até que encontrei um restaurante, um pouco recluso, sem fachada, apenas com uma porta com dois seguranças, então decidi estacionar e adentrar, pois em minha mente, parecia ser o ambiente que eu precisava; ao chegar na porta, o segurança me olha de cima à baixo com um olhar de julgamento, até que pergunta:

- Boa noite, você fez reserva aqui?
- Infelizmente não, estava andando pela cidade e decidi vir aqui - respondi.
- Entendi, mas não vai conseguir entrar aqui sem reserva - retrucou o segurança.
- Nem para tomar uma dose de uísque no bar - enquanto apontei para o bar que estava mais ao fundo do ambiente -, não vou perturbar ninguém, vou apesar sentar naquele banco e beber.

Tal segurança faz contato visual com o outro segurança que estara quieto observando a situação e sinaliza com a cabeça autorizando a minha entrada no restaurante, enquanto o outro segurança volta a olhar para mim e disse:

- Pode entrar, mas se fizer alguma gracinha ou perturbar alguém, você nunca mais voltará aqui.
- Obrigado - respondi - vou apesar tomar a minha bebida em paz.

Ao adentrar no restaurante, as luzes não eram tão claras e vibrantes, possuía um ar mais rustico e acolhedor, uma luz não tão forte, mas o suficiente para que você possa olhar para o que está comendo e a sua companhia; possuía também um grupo tocando músicas instrumentais enquanto todos do salão, estavam conversando, jantando enquanto tomam vinho com seus pares e mais ao fundo, encontrava-se o bar, com um garçom vestindo uma roupa social, enquanto lavava os copos e atrás dele, havia uma prateleira do tamanho da parede repleta de bebidas, dentre elas, vodka, uísque, espumantes, vinhos, gin, aperitivos, rum e todos os tipos de destilados possíveis com as melhores marcas; enquanto as cadeiras frente ao bar, estavam todas vazias.

 Quando puxei a cadeira e me sentei, o garçom levanta o rosto e diz:
- Nossa - disse ele surpreso - achei que os seguranças não deixariam você entrar, você é um homem de sorte!
- Pois é, nem eu acreditei - sorrindo - então, você tem cerveja ou apenas destilado?
- Temos o que você quiser - respondeu.
- Olha só, vamos começar devagar então, poderia me servir uma cerveja?
- Claro, qual marca o senhor gostaria?
- Ah, como o dia está difícil, gostaria de uma Heineken, por favor! - respondi.
- Como o senhor quiser!

E em seguida, abriu tal cerveja e ficamos conversando um pouco, já que eu era o seu único cliente na bancada enquanto ele preparava as bebidas, lavava os copos e observava o movimento dos demais clientes. Long necks se esvaziavam com o passar do tempo entre um assunto e outro com esse garçom, até que falei:

- Bem, chega de cerveja, poderia me servir uma dose desse Jack Daniel's que está atrás de você, por favor?
- Claro, como quiser - respondeu

Lá se foi mais algum tempo naquele restaurante, entre uma dose e outra, e quando estava pronto para ir embora e informo que iria tomar a última dose, ouço uma voz feminina, tão suave quanto a brisa do vento, tão serena quanto um bebê enquanto adormece, ao meu lado:

- Você já vai embora?
- Sim, já bebi demais por hoje - respondi ao virar o meu rosto e quando me viro, vejo uma bela dama de cabelo curto preto, olhos tão misteriosos quanto a noite, usando um vestido também preto e saltos que combinavam com tal cor - e ainda agora, vai que o segurança me toca por eu estar te incomodando.
- Imagina, ele não faria isso! - exclamou.
- Me avisou na entrada, então com certeza ele fará isso - afirmei enquanto sorria de canto de boca
- Relaxa, não precisa de preocupar com isso, vamos mudar de assunto: noite difícil?
- Pior que não, eu precisava apenas de um ambiente tranquilo para tomar umas, sozinho - respondi.
- Ah sim, me desculpe, não vou te incomodar.
- Não não! Desculpa, não foi isso que eu quis dizer, você parece legal, vamos começar de novo?
- Vamos sim - disse ela sorrindo.
- Oi, boa noite, muito prazer, meu nome é Logan e o seu?
- Muito prazer Logan, meu nome é Camilly!
- O prazer é todo meu Camilly e o que uma moça linda como você faz num lugar desse sozinha?
- E quem disse que estou sozinha? - perguntou ela sorrindo.
- Não está sozinha? - questionei.
- Não, estou com o meu grande amigo que teve um dia ruim - respondeu naturalmente, como se nos conhecêssemos a um bom tempo.
- Sim, está certa, desculpa Camilly, demorei para lembrar - disse eu brincando - pois bem Camilly, o que você gosta beber?
- Eu gostaria de pedir uma caipirinha com vodka, por gentileza

E assim o garçom a fez, durante o preparo e após a servi-la, eu e a Camilly passamos um bom tempo conversando sobre o restaurante, as pessoas que estavam lá, a música que estava tocando, de como foi o meu dia, como foi o dia dela, o que ela gosta de fazer, os amigos, o passado, as histórias engraçadas que haviam acontecido na adolescência, trabalho; enquanto conversávamos, pedíamos mais bebidas, e eu percebia que ela ficava cada vez mais extrovertida, animada, interessada no que eu tinha a dizer, mas ao mesmo tempo, eu não podia deixar de notar no quão misteriosa ela se apresentava, sempre deixando algumas pontas soltas para que pudéssemos conversar e no quanto isso a deixava ainda mais linda.

- Desculpa atrapalhar o casalzinho, mas estamos fechando - disse o garçom em um tom imperativo.
- Ok, sem problemas, estamos de partida, poderia fechar a nossa conta? - respondi ao jovem rapaz.
- Ficou R$187,90, como será feito o pagamento? Dinheiro ou cartão?
- Farei no cartão de débito, por favor - disse ao garçom - mas antes, poderia incluir essa garrafa de uísque que estava me servindo, por gentileza? 
- Claro, posso sim - respondeu.

Ao sairmos do restaurante, fomos em direção ao meu carro, que estava estacionado na esquina, enquanto tomávamos a garrafa. Quando chegamos no meu carro, ela me deu um abraço e ali ficamos, coloquei as minhas mãos em sua cintura, enquanto a garrafa estava no teto do Virtus e começamos a conversar frente à frente:
- Você quer ir para a minha casa?
- Não, aqui está bom - respondeu
- Tudo bem, podemos ficar aqui, aqui está ótimo.
- Mas então, me tira uma dúvida? - Perguntou enquanto olhava no fundo dos meus olhos.
- Claro, pode me perguntar, o que quiser!
- Me diga, uma pessoa interessante como você, ambiciosa, inteligente, gentil, educado... Se você pudesse ter o que quiser, o que gostaria de ter?
- Olha, no momento agora, um beijo seu iria ser algo que eu gostaria de ter agora - respondi.
- Não bobo - retrucou - estou falando sério.
- Eu não sei, há tanta coisa que eu poderia almejar, como poder, dinheiro, um carro melhor, melhores condições de vida, morar em uma nova cidade, ser imortal, há tantas possibilidades de desejo, mas não é isso que eu gostaria de ter.
- E o que gostaria de ter? - Perguntou Camilly - O que gostaria de ter Logan, se pudesse ter o que quisesse?
- Camilly, pode parecer estupidamente idiota isso, mas o que eu gostaria realmente, não há nada eu possa fazer para consertar - disse a ela com um tom de voz mais brando.
- Não há nada mesmo? Nem mesmo que um ser possa realizar qualquer desejo? Basta pedir, meu amor! - afirmou Camilly
- Não, infelizmente não, não seria justo isso com ela, então tenho que conviver com isso.
- Entendo, em meio as nossas conversas de hoje, você não comentou de nenhuma paixão antiga, mas aqui está, desejando-a. Diferente de muitos outros, você não se deu ao luxo de pensar sobre como seria a vida incrível que vocês teriam, o casamento incrível, as viagens para os confins do mundo, as juras de amor em um restaurante, as façanhas que fariam nos lugares proibidos, os filhos que poderiam ter, a vida ideal até que os dois pudessem envelhecer juntos e carregar seus netos em seus braços.
- Sim, eu já pensei nisso muitas vezes antes, há um longo tempo atrás, mas não posso mais voltar para vida dela, e entendi que a gente não pode ter tudo aquilo que mais deseja, ainda mais se depender de mais alguém para que isso se realizasse.
- Entendo, bem, eu tentei, agora posso pedir um favor?
- Claro, pode pedir.
- Feche os seus olhos.
- Eu não, vai que você me assalta ou me mata ou me sequestra - respondi dando risada.
- É sério, eu jamais faria isso - respondendo - ainda mais sem a sua permissão - sussurrando.
- Tudo bem - enquanto fechava os meus olhos.

Quando fechei os meus olhos, senti o sabor e o calor de seus lábios encostando nos meus, como um sinal de despedida e em seguida, eu já não a sentia mais em meus braços e, para a minha surpresa, abro os meus olhos e não a encontro mais, nem nas proximidades, como se ela tivesse evaporado; ao entrar no carro, coloco a garrafa de uísque no banco do passageiro e retorno para casa, sem saber exatamente o que houve, mas uma parte de mim, sente-se aliviado em poder ter contato o que estava sentindo para alguém, e a outra parte, imaginou como poderia ter sido o dia seguinte se tivesse aceito, seja lá qual for o preço, estava pronto para aceitar, mas não seria justo.

Em casa, levemente embriagado, coloco o meu celular, chave e carteira na mesa de cabeceira, enquanto tiro a minha roupa e coloco o meu pijama; ao deitar na cama, prestes a dormir, chega uma notificação no meu celular, no meio da madrugada, mas eu não vejo, vou deixar para amanhã, porquê o amanhã poderá vir a ser diferente e por hoje, já estou exausto de viver.



#Drake

quinta-feira, 25 de maio de 2023




Eu não sei por onde começar a escrever, a falar, a desabafar ou por qual motivo comecei a chorar ou por qual motivo devo chorar, entretanto, há uma voz em minha cabeça que me diz: "ainda não" e alguma coisa me faz acreditar que não devo chorar, é um erro, eu sei, isso pode adoecer a mente, o coração e alma, mas eu sigo.

Sigo para não decepcionar quem eu fui, para não decepcionar o meu eu quando criança, para não decepcionar o meu eu que ainda irei vir a ser, é confuso eu sei. Confuso tanto quanto o jeito que sigo. Sigo sem direção, assim como migrante que caça seus sonhos através de uma rodoviária lotada e não sabe em qual ônibus entrar e nem para onde aquela jornada pode vir a dar.

Sigo sem olhar para os lados focando apenas no "fazer as coisas direito", mas isso eu consigo fracassar, assim como uma missão de RPG que não pode ser cumprida e para a minha sorte, essa missão não é o suficiente para travar todo o jogo.

Confesso também que sigo o meu caminho com medo, e é uma verdade, o medo de não ser bom o suficiente; o medo de não ser aquilo que havia prometido a mim mesmo que seria; o medo de decepcionar aqueles que amo; medo de quebrar as minhas promessas e juramento por fraqueza ou luxúria, eu sei o que quero ser, mas nunca me perguntaram como será feito e quando ainda me questionam, pensam que eu possuo um plano e a verdade é que eu não tenho nenhum plano, apenas medos, traumas, inseguranças e uma vontade descomunal de colocar para fora toda a angústia de ter dado conta de tanta responsabilidade sozinho.

Mas ainda não é o momento, lembre-se sempre disso, nunca é o momento ideal, não será no seu serviço, na rua, no bar, nos braços de quem te ama, em sua casa, em sua sessão de análise, não não, não será possível expor a sua angústia, porque expomos nossas fraquezas e eu não quero parecer fraco ou menos potente do que sou, mesmo que isso me cause tantos prejuízos quanto posso mencionar aqui.

Não há um lugar para desabafar, não há um plano efetivo, me resta apenas carregar o meu orgulho e seguir o caminho como se nada me abalasse, mesmo que com medo, eu tenho que continuar, sozinho, mas continuo, porque essa é a minha tarefa e a minha promessa a mim mesmo, continue.


#Drake