Era um sábado à noite como outro qualquer, estava um clima
frio de 20ºC que combina perfeitamente com uma macarronada artesanal ao molho
vermelho que também pedia de acompanhamento, um vinho tinto; principalmente pelo
fato de que Mary viria ao fim do seu turno de enfermeira, direto para o meu
apartamento.
Enquanto fazia os preparativos da massa, noto que tomei
metade da garrafa que havia reservado para hoje à noite e de brinde, ao ver as
especiarias e vegetais que iria utilitizar para preparar o molho, noto novamente que não havia
alguns dos itens necessários para fazê-lo, então aproveito que a massa está
descansando e há cerca de duas horas para o mercado fechar e vou até lá para comprar aquilo que estava faltando.
Visto a minha jaqueta preta, calço o meu tênis, desço até a
garagem e observo que não encontrei com o Sr. Antony, meu vizinho de porta,
que deve estar em repouso por conta do frio, afinal, prestar atenção no
corredor é o seu hobbie. Ao entrar no meu carro, conecto o meu celular,
coloco a mesma playlist de "Chill vibes" que escutava enquanto
produzia o macarrão, mas dessa vez, não continuou a mesma música que havia pausado, começou uma nova canção - que fazia anos que não escutava e que me lembrava uma pessoa especial - e então, dirijo-me ao mercado que é razoavelmente próximo do
apartamento que moro.
Ao adentrar no mercado, pego uma cesta, pois não há necessidade de pegar um carrinho de compras para no máximo oito itens, então parto para a seção de frutas e legumes, onde encontro também algumas especiarias que irei utilizar e coloco em minha cesta: tomates frescos, cebola e orégano.
Em
seguida, vou para a gondola de pães e pego um pacote de pães de forma integral
para tomarmos café da manhã no dia seguinte.
Por fim, vou para a adega a fim de pegar duas outras
garrafas de vinho tinto. Antes de retornar e finalizar os preparos do jantar. Quando
chego na seção de vinhos, encontro o rótulo que gosto, mas algo me chama a atenção: um garoto de
uns supostos setes anos, com cabelos castanhos ondulados, olhos castanhos
escuros encarando aquela infinitude de rótulos com uma expressão em seu rosto
de estar totalmente perdido. Então, me viro e pergunto ao garoto:
- Está tudo bem? Parece um pouco perdido? Onde estão os seus
pais?
O garoto seguia encarando os rótulos quando me responde:
- Não estou perdido não, senhor! Estou procurando um vinho
que a minha mãe gosta de beber, hoje não foi um dia fácil para ela, então acho
que um vinho a faria bem.
- E você se lembra do nome do vinho que ela gosta?
- Não sei.
- O vinho tem algum animal ou um objeto ou alguma palavra
que chame a atenção?
- Não sei, acredito que seja um que tem um contorno de um
pássaro em uma gaiola.
Rapidamente encontrei o vinho que o menino estava a procura,
que por coincidência, era o mesmo rotulo que havia ido buscar, então
eu o retirei da gondola e entreguei ao menino, então ele se vira para mim e com
um sorriso em seu rosto, diz:
- Muito obrigado, senhor...?
- Não precisa me chamar de senhor - Havia me sentido mais
velho desde a primeira vez que ele me chamou - meu nome é Dante e o seu?
Ele então arregala os seus olhos e diz surpreendentemente:
- O meu também!
Então sorrio e concordo com tal coincidência:
- É uma baita coincidência, meu xará... Agora que encontrou
o vinho, que tal encontrarmos a sua mãe? Acredito que ela deva estar preocupada
com o filho dela e daqui a pouco o seu, digo, o nosso nome irá surgir no rádio
do mercado.
- Tem razão! - Exclama o menino e se vira para tentar
localizar a sua mãe - ela está ali, eu vou indo, muito obrigado Dante - enquanto aponta
para ela.
Quando meus olhos acompanham a direção do seu indicador, noto que a mãe daquele menino era Beatriz, uma mulher pela qual eu havia me apaixonado no passado e que foi a única mulher que amei, mas que de repente, se foi, sem aviso, sem justificativas, sem uma conversa, sem medo nenhum de jogar todo o tempo que passamos juntos, fora; apenas acordou determinado dia e decidiu: não quero mais você na minha vida.
E por um breve momento, passou em minha mente, todo o tempo que passamos juntos, mas que ao conversar com o menino, ela vira o seu olhar de alívio para mim, o que ocasionou por um breve instante, uma troca de olhares, mas me viro no mesmo instante para pegar as garrafas de vinho e caminho para a fila do caixa para passar as minhas compras e retornar para a casa, terminar de preparar o jantar para Mary e aproveitar a nossa companhia juntos.
Ao colocar as minhas compras no balcão do caixa, ouço a atendente:
- Olá, boa noite, tudo bem? Participa do programa de
fidelidade?
- Olá, boa noite, tudo sim e você? Não, não participo -
Respondi.
Enquanto a atendente começava a passar as minhas compras eu
ouço uma voz familiar atrás de mim:
- Foi ele, mãe! Que me ajudou a encontrar o seu vinho
favorito e advinha qual é o nome dele?
- Dante? - E ao ouvir Beatriz dizer o meu nome, sinto um
calafrio percorrendo a minha espinha e senti um leve toque em minhas costas
sobre minha jaqueta.
- Oi? - Enquanto me virava, estremecido.
- Tudo bem? -Perguntou.
- Estou bem e você? - Respondi.
- Estou bem também, o meu filho me contou que você o ajudou a
encontrar o vinho que eu gosto - Disse Beatriz.
- É então, baita coincidência, pois estava na adega justamente para pegar algumas garrafas para mim também - Enquanto as colocava em uma sacola de compra e guardava os demais
itens em outra.
- Deu US$143,02, qual que é a forma de pagamento? Dinheiro
ou cartão? - Pergunta a atendente.
- Vai ser no cartão de crédito - A respondo.
- É um bom vinho, não é mesmo? - pergunta Beatriz.
- Sim, é o melhor que eu já provei - respondo com um sorriso completamente
nervoso enquanto encarava aquele olhar.
- Pode inserir a senha do cartão, por gentileza - Interrompe
a atendente.
- E você, tem feito o que da vida? - pergunto a Beatriz,
enquanto inseria o cartão e em seguida, digitava a senha.
- Ah, o de sempre, trabalhando, cuidando do meu filho -
Enquanto o abraça - e você? - Respondeu.
- Nada novo de novo, estou apenas trabalhando, tentando
ainda me tornar um escritor famoso.
- Mãe, vocês se conhecem? - Interrompe o menino.
- Ele era um... amigo da mãe de uns anos atrás, antes mesmo
de você nascer - respondeu Beatriz enquanto me encarava para não contar a
verdade, sobre o que fomos um para o outro.
- Sim, éramos amigos Dante, mas acabou que nós que
perdemos contato. Bem, eu vou indo embora, tenho que terminar o meu jantar, -
digo isso enquanto pego a nota do cartão e as compras do balcão - tenham uma boa noite e prazer em revê-la e conhecê-lo Dante, vê se cuida da sua mãe!.
- Pode deixar, eu vou cuidar sim! - Responde o menino.
- Prazer em revê-lo também Dante - Responde Beatriz.
Dou um leve sorriso de canto de boca totalmente desconcertado enquanto a vejo pela última vez. Ela está tão linda quanto naquele dia em que eu a vi partir, mas que de nada adiantaria eu fazer/dizer algo, ela fez a sua escolha e cabe a mim, respeitar a sua decisão.
Então retorno ao meu carro, coloco as compras no banco do passeiro e ao ligar o carro, a mesma música que havia anos que não ouvia, toca novamente e tudo o que penso é: Se existe algo no plano superior, ele com certeza ama ironias e me odeia, porra, fazem mais de sete anos que eu não a vejo e hoje, depois de todo esse tempo, nós nos encontramos no mercado e ela deu o meu nome para o filho dela, por quê?
Ao chegar na porta do apartamento, respiro fundo e quando termino, sou surpreendido por Mary já estar em meu apartamento e me esperando com uma taça de vinho na mão:
- Demorou no mercado - Afirma Mary.
- Você não ia chegar daqui uma hora? - Questiono enquanto coloco as compras no balcão da cozinha e encaro o relógio para confirmar de quais horas eram.
- A enfermeira chefe Sofie, me liberou mais cedo, falei que tinha um encontro especial com o meu gatinho - Enquanto me abraça por cima dos meus ombros, com a taça na mão e me dá um selinho.
- E você vai recebê-lo aqui? Eu vou ficar com ciúmes - digo enquanto apoio minhas mãos em sua cintura.
- Você vai ficar com ciúmes é? - Disse enquanto me encara com um olhar malícioso.
- Vamos terminar de preparar o macarrão para jantarmos, você deve estar morrendo de fome e não quero que chamem o bombeiro por conta de um macarrão queimado enquanto nós pegamos fogo no outro cômodo.
- Por quê tem que ser em outro cômodo? - A questiona.
#Drake
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