domingo, 10 de maio de 2026

A visita


 

Era um domingo à noite, eu estava deitado na minha cama vendo reels infinitamente no Instagram, próximo ao horário que costumo dormir, pois amanhã tinha que acordar cedo para o trabalho. Era um domingo de chuva, estava sozinho na minha casa e parecia que havia um pacto social de não fazer nenhum barulho, apenas alguns carros ou motos passando na rua.

Durante o dia, eu havia descansado, começou com uma garoa durante a tarde, um almoço tardio, um dia de extrema preguiça, então não estava com sono, então pensei em levantar-me da cama, preparar um chá e ver algum sitcom até que o sono me faça companhia no sofá e eu possa adormecer. Decidi então largar o meu celular na cama, pegar meu travesseiro e a minha coberta verde escura para levar até o sofá, ligar as luminárias amarelas e manter um ambiente com a luz baixa, para que fosse possível enxergar e andar pela casa. Enquanto preparo o sofá, ligo a televisão e coloco no primeiro streaming para iniciar o aplicativo, em seguida, vou até a cozinha colocar a chaleira para ferver a água e preparar a caneca, colocando açúcar e escolher o sabor que mais combina com o clima.

Quando retorno para o quarto, para pegar o celular, vejo que há uma chamada perdida de um número não cadastrado, então decido ignorar, afinal, quem eu conheço e quem precisa de mim, não ligariam de outro número. De repente, chega uma mensagem desse tal número desconhecido escrito: "Oi, boa noite, você está na sua casa? Preciso conversar, não estou nada bem."

Ao abrir a mensagem, decido olhar a foto do perfil, pois é de uma intimidade para saber onde eu moro que não é normal receber esse tipo de mensagem de um número desconhecido. E não era tão desconhecido assim, era Rebecca, uma mulher que havia perdido contato há algum tempo e devo ter apagado o número, então respondi: "Olá, boa noite, estou em casa sim, o que precisa conversar?".


Rapidamente, ela responde: "Estou na frente da sua porta, se puder abrir, está chovendo bastante."

Em seguida, respondi: "Sem problemas, abro sim".

E lá estava ela, molhada com a chuva, pelo visto, estava esperando desde a ligação na frente da minha porta; com a maquiagem borrada; tremendo de frio; com o carro estacionado na frente da minha garagem. Disse a ela:

- Oi, entra entra, você está encharcada - Enquanto a recebo com uma toalha em seus ombros - O banheiro é logo ali à esquerda, para que você tome um banho quente, enquanto isso, vou pegar algumas roupas pra você e já pego uma coberta pra você também, deve estar morrendo de frio, aceita uma caneca de chá?

- Se não for incômodo, eu agradeço e viu, obrigada por me receber - Respondeu.

Após o banho quente, ela se veste e se senta em uma das cadeiras da ilha da cozinha e lhe sirvo o chá que havia oferecido anteriormente, então ela me pergunta:

- Por quê abriu a sua porta pra mim?

- Porquê você precisava conversar e porquê estava esperando o chá terminar de ficar pronto - Respondi, enquanto bebia um pouco do chá do outro lado da ilha.

- Entendi.

- O que queria conversar? - A questionei.

- Eu não sei, eu não deveria estar aqui, foi um erro, me desculpa, poderia abrir a porta pra mim? - Disse Rebecca nervosa.

- Ei ei ei, respira, tá tudo bem, eu abri a minha casa pra você e aparentemente, você não está nada bem, fique aqui o tempo que precisar, se quiser dormir, pode dormir, eu não vejo problema, tem uma cama no quarto de visitas.

- Tem certeza? Mesmo depois de tudo que passamos juntos? 

- Sim, eu tenho certeza, mas me conta, o que houve?

- Eu não sei, estou tão perdida, achei que com o nosso término, tudo ficaria mais fácil, mas a verdade é que não ficou. Eu não consigo dormir direito, meu trabalho está cada dia mais cansativo, não estou dando conta de estudar o que preciso, não estou conseguindo caminhar, tem dias que eu não sei o que é pior: ficar no trabalho ou estar em casa com a minha família. Tudo o que eu queria era voltar para a época que estávamos juntos, parecia tudo mais leve, mas eu tive que aceitar a escolha que eu fiz e a mantê-la, pois não seria justo com você... Inclusive, olha você, está em forma, trocou de emprego, trocou de carro, parece bem, deve ter arranjado até uma namorada nova. E agora aparece eu na sua porta, pedindo socorro como uma cachorra arrependida, não é justo com você, me desculpa.

- Becca, o meu plano era estar aqui e ter a certeza de que você também estivesse ou que chegaria mais tarde, mas ainda sim, estivesse nessa casa comigo, para podemos conversar sobre os nossos dias de merda enquanto tomávamos uma garrafa ou duas de vinho até quando o tempo permitisse. Eu queria poder ter contato que mudei de emprego, que troquei de carro, que deixei o jardim do jeito que sempre quis, a decoração do interior tivesse do seu agrado, que você escolhesse a cor das paredes e quem sabe, daqui uns bons anos, nós não formássemos uma família ou que poderíamos fazer um churrasco aos finais de semana com família e amigos. Pensei em todas as viagens que poderíamos fazer, dos lugares que visitaríamos, de desbravar não apenas os sete mares, mas todos os continentes. Houve um chá revelação que fui convidado e enquanto eles descobriam o sexo do filho, tudo o que eu pensei foi o olhar cheio de lágrimas me chamando de amor. Eu ainda te amo, sigo te esperando, mas sei que não é justo nem com você e nem tão pouco comigo mesmo, então entendo e respeito a sua decisão de querer partir e quem sabe, não apareça outro alguém que queira ficar e se não aparecer, está tudo bem, porquê eu sei que você foi o amor da minha vida, mas não o amor para a minha vida.

- Nossa, que profundo.

- Sabe, eu poderia virar a madrugada falando tudo aquilo que está preso em mim, mas de nada adianta, pois não ia mudar o fato e não há motivos para continuar tocando no assunto, então me desculpa, me excedi nas palavras... O chá está bom?

- Está bom sim, qual sabor que é?

- Camomila com ervas cidreira. 



#Drake

segunda-feira, 13 de abril de 2026

O vinho do pássaro azul em uma gaiola






Era um sábado à noite como outro qualquer, estava um clima frio de 20ºC que combina perfeitamente com uma macarronada artesanal ao molho vermelho que também pedia de acompanhamento, um vinho tinto; principalmente pelo fato de que Mary viria ao fim do seu turno de enfermeira, direto para o meu apartamento.

Enquanto fazia os preparativos da massa, noto que tomei metade da garrafa que havia reservado para hoje à noite e de brinde, ao ver as especiarias e vegetais  que iria utilitizar para preparar o molho, noto novamente que não havia alguns dos itens necessários para fazê-lo, então aproveito que a massa está descansando e há cerca de duas horas para o mercado fechar e vou até lá para comprar aquilo que estava faltando.

Visto a minha jaqueta preta, calço o meu tênis, desço até a garagem e observo que não encontrei com o Sr. Antony, meu vizinho de porta, que deve estar em repouso por conta do frio, afinal, prestar atenção no corredor é o seu hobbie. Ao entrar no meu carro, conecto o meu celular, coloco a mesma playlist de "Chill vibes" que escutava enquanto produzia o macarrão, mas dessa vez, não continuou a mesma música que havia pausado, começou uma nova canção - que fazia anos que não escutava e que me lembrava uma pessoa especial - e então, dirijo-me ao mercado que é razoavelmente próximo do apartamento que moro.

Ao adentrar no mercado, pego uma cesta, pois não há necessidade de pegar um carrinho de compras para no máximo oito itens, então parto para a seção de frutas e legumes, onde encontro também algumas especiarias que irei utilizar e coloco em minha cesta: tomates frescos, cebola e orégano.

Em seguida, vou para a gondola de pães e pego um pacote de pães de forma integral para tomarmos café da manhã no dia seguinte.

Por fim, vou para a adega a fim de pegar duas outras garrafas de vinho tinto. Antes de retornar e finalizar os preparos do jantar. Quando chego na seção de vinhos, encontro o rótulo que gosto, mas algo me chama a atenção: um garoto de uns supostos setes anos, com cabelos castanhos ondulados, olhos castanhos escuros encarando aquela infinitude de rótulos com uma expressão em seu rosto de estar totalmente perdido. Então, me viro e pergunto ao garoto:

- Está tudo bem? Parece um pouco perdido? Onde estão os seus pais?

O garoto seguia encarando os rótulos quando me responde:

- Não estou perdido não, senhor! Estou procurando um vinho que a minha mãe gosta de beber, hoje não foi um dia fácil para ela, então acho que um vinho a faria bem.

- E você se lembra do nome do vinho que ela gosta?

- Não sei.

- O vinho tem algum animal ou um objeto ou alguma palavra que chame a atenção?

- Não sei, acredito que seja um que tem um contorno de um pássaro em uma gaiola.

Rapidamente encontrei o vinho que o menino estava a procura, que por coincidência, era o mesmo rotulo que havia ido buscar, então eu o retirei da gondola e entreguei ao menino, então ele se vira para mim e com um sorriso em seu rosto, diz:

- Muito obrigado, senhor...?

- Não precisa me chamar de senhor - Havia me sentido mais velho desde a primeira vez que ele me chamou - meu nome é Dante e o seu?

Ele então arregala os seus olhos e diz surpreendentemente:

- O meu também!

Então sorrio e concordo com tal coincidência:

- É uma baita coincidência, meu xará... Agora que encontrou o vinho, que tal encontrarmos a sua mãe? Acredito que ela deva estar preocupada com o filho dela e daqui a pouco o seu, digo, o nosso nome irá surgir no rádio do mercado.

- Tem razão! - Exclama o menino e se vira para tentar localizar a sua mãe - ela está ali, eu vou indo, muito obrigado Dante - enquanto aponta para ela.

Quando meus olhos acompanham a direção do seu indicador, noto que a mãe daquele menino era Beatriz, uma mulher pela qual eu havia me apaixonado no passado e que foi a única mulher que amei, mas que de repente, se foi, sem aviso, sem justificativas, sem uma conversa, sem medo nenhum de jogar todo o tempo que passamos juntos, fora; apenas acordou determinado dia e decidiu: não quero mais você na minha vida.

E por um breve momento, passou em minha mente, todo o tempo que passamos juntos, mas que ao conversar com o menino, ela vira o seu olhar de alívio para mim, o que ocasionou por um breve instante, uma troca de olhares, mas me viro no mesmo instante para pegar as garrafas de vinho e caminho para a fila do caixa para passar as minhas compras e retornar para a casa, terminar de preparar o jantar para Mary e aproveitar a nossa companhia juntos.

Ao colocar as minhas compras no balcão do caixa, ouço a atendente:

- Olá, boa noite, tudo bem? Participa do programa de fidelidade?

- Olá, boa noite, tudo sim e você? Não, não participo - Respondi.

Enquanto a atendente começava a passar as minhas compras eu ouço uma voz familiar atrás de mim:

- Foi ele, mãe! Que me ajudou a encontrar o seu vinho favorito e advinha qual é o nome dele?

- Dante? - E ao ouvir Beatriz dizer o meu nome, sinto um calafrio percorrendo a minha espinha e senti um leve toque em minhas costas sobre minha jaqueta.

- Oi? - Enquanto me virava, estremecido.

- Tudo bem? -Perguntou.

- Estou bem e você? - Respondi.

- Estou bem também, o meu filho me contou que você o ajudou a encontrar o vinho que eu gosto - Disse Beatriz.

- É então, baita coincidência, pois estava na adega justamente para pegar algumas garrafas para mim também - Enquanto as colocava em uma sacola de compra e guardava os demais itens em outra.

- Deu US$143,02, qual que é a forma de pagamento? Dinheiro ou cartão? - Pergunta a atendente.

- Vai ser no cartão de crédito - A respondo.

- É um bom vinho, não é mesmo? - pergunta Beatriz.

- Sim, é o melhor que eu já provei - respondo com um sorriso completamente nervoso enquanto encarava aquele olhar.

- Pode inserir a senha do cartão, por gentileza - Interrompe a atendente.

- E você, tem feito o que da vida? - pergunto a Beatriz, enquanto inseria o cartão e em seguida, digitava a senha.

- Ah, o de sempre, trabalhando, cuidando do meu filho - Enquanto o abraça - e você? - Respondeu.

- Nada novo de novo, estou apenas trabalhando, tentando ainda me tornar um escritor famoso.

- Mãe, vocês se conhecem? - Interrompe o menino.

- Ele era um... amigo da mãe de uns anos atrás, antes mesmo de você nascer - respondeu Beatriz enquanto me encarava para não contar a verdade, sobre o que fomos um para o outro.

- Sim, éramos amigos Dante, mas acabou que nós que perdemos contato. Bem, eu vou indo embora, tenho que terminar o meu jantar, - digo isso enquanto pego a nota do cartão e as compras do balcão - tenham uma boa noite e prazer em revê-la e conhecê-lo Dante, vê se cuida da sua mãe!.

- Pode deixar, eu vou cuidar sim! - Responde o menino.

- Prazer em revê-lo também Dante - Responde Beatriz.

Dou um leve sorriso de canto de boca totalmente desconcertado enquanto a vejo pela última vez. Ela está tão linda quanto naquele dia em que eu a vi partir, mas que de nada adiantaria eu fazer/dizer algo, ela fez a sua escolha e cabe a mim, respeitar a sua decisão.

Então retorno ao meu carro, coloco as compras no banco do passeiro e ao ligar o carro, a mesma música que havia anos que não ouvia, toca novamente e tudo o que penso é: Se existe algo no plano superior, ele com certeza ama ironias e me odeia, porra, fazem mais de sete anos que eu não a vejo e hoje, depois de todo esse tempo, nós nos encontramos no mercado e ela deu o meu nome para o filho dela, por quê?

Ao chegar na porta do apartamento, respiro fundo e quando termino, sou surpreendido por Mary já estar em meu apartamento e me esperando com uma taça de vinho na mão:

- Demorou no mercado - Afirma Mary.

- Você não ia chegar daqui uma hora? - Questiono enquanto coloco as compras no balcão da cozinha e encaro o relógio para confirmar de quais horas eram.

- A enfermeira chefe Sofie, me liberou mais cedo, falei que tinha um encontro especial com o meu gatinho - Enquanto me abraça por cima dos meus ombros, com a taça na mão e me dá um selinho.

- E você vai recebê-lo aqui? Eu vou ficar com ciúmes - digo enquanto apoio minhas mãos em sua cintura.

- Você vai ficar com ciúmes é? - Disse enquanto me encara com um olhar malícioso.

- Vamos terminar de preparar o macarrão para jantarmos, você deve estar morrendo de fome e não quero que chamem o bombeiro por conta de um macarrão queimado enquanto nós pegamos fogo no outro cômodo.

- Por quê tem que ser em outro cômodo? - A questiona.



#Drake