Querida Beatrice,
Um estranho perguntou de você, se estávamos casados, por
onde você andava; e naquele momento, eu lembrei de como nós tivemos a nossa
última conversa e o respondi, informando que não estávamos mais juntos. Ele
exclamou sobre o quanto nós combinávamos, tínhamos uma boa relação e por um
breve momento, eu quase o respondi: eu também achava.
Agora estou aqui em casa, frente a lareira, pensando
exatamente no que escrever, enquanto embriago-me com o meu Jack Daniels. Eu
tinha uma ideia exata do que escrever, uma linha de raciocínio, uma estrutura,
mas a verdade é que só de pensar em você, eu me perco. Lembro-me da primeira
vez que toquei a sua mão, de como um gesto sutil poderia dar a entender as
minhas intenções com você; lembro-me do que te aborrecia naquele instante e
como o mundo ficou mais vívido quando você olhou diretamente pra mim.
Lembro-me também de como através do olhar, você demonstrava
desejo, anseios, o que te deixava constrangida, o que te deixava feliz, antes
mesmo de dizer uma palavra ou esboçar uma reação completa; e um exemplo disso,
foi quando nos beijamos a primeira vez encostados no meu carro, antes mesmo de
atravessar a rua e adentrar ao barzinho que havíamos combinado de sair naquele
dia; sem precisar dizer uma palavra, apenas pelo olhar, eu sabia que queria
estar com você pelo resto da minha vida.
O engraçado é que no atual momento, estou lutando contra o
inevitável, pois ao lembrar de todos os bons momentos, eu não consigo me
desapegar de você, é como continuar segurando uma corna que esfolou por muito
tempo as suas mãos ou em paralelo a isso, é como bater em um saco de pancada
sem luva, sem força, sem motivação, mas que insisto até o pior acontecer, ou
melhor, aconteceu e é por isso que estou te escrevendo Beatrice, eu quero parar
de te dedicar os meus melhores planos, os meus textos, a minha imaginação, a
minha esperança, o meu esforço em querer te reencontrar, porque eu sei que não
é o que você quer agora, mas que ao mesmo tempo, quando eu parar e aceitar,
aquilo irá se tornar real.
Mesmo que todos me confortem, me digam que estão ao meu
lado, que me digam que entendem, que me façam feliz, que me façam companhia até
mesmo nos dias em que nem eu queria ser a minha própria companhia, mesmo que
houvesse outra pessoa em minha vida, haverá um pedaço em meu coração com o seu
nome escrito nele e quando fizerem a autópsia deste meu coração, encontrarão um
altar com um quadro que contém a sua foto contra o sol, mostrando que você
brilhou muito mais que ele e abaixo desse quadro, haverá um grimório trancado a
sete chaves que contém todas as memórias que havíamos juntos e os planos que eu
havia planejado para a gente.
O que eu queria mesmo, era te fazer feliz ou pelo menos
retribuir o bem que você me fez, mas sei que no fim, éramos dois estranhos com
um contrato esfrangalhado procurando brechas para invalidá-lo e assim, termos
uma consciência limpa de que fizemos o que era certo, ao invés de procurar
formas de reinventar, insistir, lutar por aquilo que acreditávamos ao invés de
desistir.
Tivemos conversas difíceis, desentendimentos, noites mal
dormidas, estresses, mas nada se compara aos momentos felizes que tivemos
juntos e mesmo assim, não foi o suficiente para te fazer ficar; por isso,
queria entender, o que eu tinha que ter feito? Em que momento eu deixei que o
nosso amor escapar pelos meus dedos e você desejar outro alguém? O que eu tinha
que ser ou fazer para que você permanecesse? São perguntas como essas que me
perturbam todas as manhãs enquanto tomo café. Eu não estava bem, eu reconheço
isso, estava preocupado com o meu futuro profissional, com o nosso futuro
juntos, com a minha família, com as contas a serem pagas, porque de todas as
certezas que eu tive na vida, você era a mais linda delas e por isso, eu quis
ter o luxo de planejar tudo com calma, ao invés de atropelarmos
tudo.
Ironicamente o seu maior medo antes, era me perder e quem
abriu mão de nós, era você, e apesar disso, eu entendo. Não concordo, mas eu
reconheço que sou temperamental, inseguro, medroso, silencioso, com gostos
peculiares, impaciente, arrogante, sem noção, difícil de lidar e tudo bem, eu
poderia mudar, bem como, eu quis mudar para estar você. Tinha que conhecer a
versão anterior, em que a raiva de mim mesmo era nociva ao ponto de querer
tirar a minha vida. Muitos amigos comentavam que eu melhorei muito quando estava
com você e se você ainda me visse hoje, eu estou bem melhor que antes, era
apenas ter esperado um pouco, eu estava amadurecendo e me tornando o homem que
você merecia.
Vontade que eu tenho é de te ligar toda vez que eu sinto a
sua falta, ou quando algo muito bom, como a minha troca de emprego, ou quando
algo muito ruim, como o meu medo se tornou maior a minha vontade, ou quando eu
precisava ouvir uma voz que me acalmasse em meio ao caos, pois é você, bem, era
você, que tinha esse poder, de abraçar-me sem tocar, e de me ouvir sem estar
presente. Eu sabia que você estava lá.
O que me resta agora, é enterrar todas as memórias, os
vícios de linguagem, as canecas, as piadas internas, os lugares que viajamos,
as histórias que contamos, os planos em uma caixa de cor azul escuro com um
laço roxo no fundo do meu ser, para que ao terminarem de observar o que havia
naquele altar escondido em meu coração, possam abrir a minha alma e ali
encontrarão tal caixa. Pois eu sei que se não fizer isso, você ainda estará em
minha memória e me atormentará em meus sonhos, assim como está fazendo nos
últimos oito meses e eu quero muito que isso pare.
Sabe, espero muito que essa seja a última vez que lhe dedico
algo. Eu te amei, acredito que foi a única por quem eu senti algo dessa
magnitude. Ainda continuo sentado na cadeira lembrando do seu rosto e por
respeito à você, que eu cansei de esperar. Apenas desejo que esteja bem, feliz
e que realize todos os seus sonhos; agradeço tudo o que vivemos, sinto muito
por todos os vacilos que cometi nesse período. Eu apenas queria que fosse você.
Com amor,
#Drake