domingo, 28 de junho de 2026

A última vez que mencionarei o seu nome







Querida Beatrice,

Um estranho perguntou de você, se estávamos casados, por onde você andava; e naquele momento, eu lembrei de como nós tivemos a nossa última conversa e o respondi, informando que não estávamos mais juntos. Ele exclamou sobre o quanto nós combinávamos, tínhamos uma boa relação e por um breve momento, eu quase o respondi: eu também achava.

Agora estou aqui em casa, frente a lareira, pensando exatamente no que escrever, enquanto embriago-me com o meu Jack Daniels. Eu tinha uma ideia exata do que escrever, uma linha de raciocínio, uma estrutura, mas a verdade é que só de pensar em você, eu me perco. Lembro-me da primeira vez que toquei a sua mão, de como um gesto sutil poderia dar a entender as minhas intenções com você; lembro-me do que te aborrecia naquele instante e como o mundo ficou mais vívido quando você olhou diretamente pra mim.

Lembro-me também de como através do olhar, você demonstrava desejo, anseios, o que te deixava constrangida, o que te deixava feliz, antes mesmo de dizer uma palavra ou esboçar uma reação completa; e um exemplo disso, foi quando nos beijamos a primeira vez encostados no meu carro, antes mesmo de atravessar a rua e adentrar ao barzinho que havíamos combinado de sair naquele dia; sem precisar dizer uma palavra, apenas pelo olhar, eu sabia que queria estar com você pelo resto da minha vida.

O engraçado é que no atual momento, estou lutando contra o inevitável, pois ao lembrar de todos os bons momentos, eu não consigo me desapegar de você, é como continuar segurando uma corna que esfolou por muito tempo as suas mãos ou em paralelo a isso, é como bater em um saco de pancada sem luva, sem força, sem motivação, mas que insisto até o pior acontecer, ou melhor, aconteceu e é por isso que estou te escrevendo Beatrice, eu quero parar de te dedicar os meus melhores planos, os meus textos, a minha imaginação, a minha esperança, o meu esforço em querer te reencontrar, porque eu sei que não é o que você quer agora, mas que ao mesmo tempo, quando eu parar e aceitar, aquilo irá se tornar real.

Mesmo que todos me confortem, me digam que estão ao meu lado, que me digam que entendem, que me façam feliz, que me façam companhia até mesmo nos dias em que nem eu queria ser a minha própria companhia, mesmo que houvesse outra pessoa em minha vida, haverá um pedaço em meu coração com o seu nome escrito nele e quando fizerem a autópsia deste meu coração, encontrarão um altar com um quadro que contém a sua foto contra o sol, mostrando que você brilhou muito mais que ele e abaixo desse quadro, haverá um grimório trancado a sete chaves que contém todas as memórias que havíamos juntos e os planos que eu havia planejado para a gente.

O que eu queria mesmo, era te fazer feliz ou pelo menos retribuir o bem que você me fez, mas sei que no fim, éramos dois estranhos com um contrato esfrangalhado procurando brechas para invalidá-lo e assim, termos uma consciência limpa de que fizemos o que era certo, ao invés de procurar formas de reinventar, insistir, lutar por aquilo que acreditávamos ao invés de desistir.

Tivemos conversas difíceis, desentendimentos, noites mal dormidas, estresses, mas nada se compara aos momentos felizes que tivemos juntos e mesmo assim, não foi o suficiente para te fazer ficar; por isso, queria entender, o que eu tinha que ter feito? Em que momento eu deixei que o nosso amor escapar pelos meus dedos e você desejar outro alguém? O que eu tinha que ser ou fazer para que você permanecesse? São perguntas como essas que me perturbam todas as manhãs enquanto tomo café. Eu não estava bem, eu reconheço isso, estava preocupado com o meu futuro profissional, com o nosso futuro juntos, com a minha família, com as contas a serem pagas, porque de todas as certezas que eu tive na vida, você era a mais linda delas e por isso, eu quis ter o luxo de planejar tudo com calma, ao invés de atropelarmos tudo.  

Ironicamente o seu maior medo antes, era me perder e quem abriu mão de nós, era você, e apesar disso, eu entendo. Não concordo, mas eu reconheço que sou temperamental, inseguro, medroso, silencioso, com gostos peculiares, impaciente, arrogante, sem noção, difícil de lidar e tudo bem, eu poderia mudar, bem como, eu quis mudar para estar você. Tinha que conhecer a versão anterior, em que a raiva de mim mesmo era nociva ao ponto de querer tirar a minha vida. Muitos amigos comentavam que eu melhorei muito quando estava com você e se você ainda me visse hoje, eu estou bem melhor que antes, era apenas ter esperado um pouco, eu estava amadurecendo e me tornando o homem que você merecia.

Vontade que eu tenho é de te ligar toda vez que eu sinto a sua falta, ou quando algo muito bom, como a minha troca de emprego, ou quando algo muito ruim, como o meu medo se tornou maior a minha vontade, ou quando eu precisava ouvir uma voz que me acalmasse em meio ao caos, pois é você, bem, era você, que tinha esse poder, de abraçar-me sem tocar, e de me ouvir sem estar presente. Eu sabia que você estava lá.

O que me resta agora, é enterrar todas as memórias, os vícios de linguagem, as canecas, as piadas internas, os lugares que viajamos, as histórias que contamos, os planos em uma caixa de cor azul escuro com um laço roxo no fundo do meu ser, para que ao terminarem de observar o que havia naquele altar escondido em meu coração, possam abrir a minha alma e ali encontrarão tal caixa. Pois eu sei que se não fizer isso, você ainda estará em minha memória e me atormentará em meus sonhos, assim como está fazendo nos últimos oito meses e eu quero muito que isso pare.

Sabe, espero muito que essa seja a última vez que lhe dedico algo. Eu te amei, acredito que foi a única por quem eu senti algo dessa magnitude. Ainda continuo sentado na cadeira lembrando do seu rosto e por respeito à você, que eu cansei de esperar. Apenas desejo que esteja bem, feliz e que realize todos os seus sonhos; agradeço tudo o que vivemos, sinto muito por todos os vacilos que cometi nesse período. Eu apenas queria que fosse você.


Com amor, 

#Drake